O processo de hierarquia por meio de categorização sempre constituiu uma parte essencial de nosso progresso social, por causa de sua funcionalidade mensurável. A categorização vocal não foi exceção, mas dado que todas as vozes cantadas são únicas – o equivalente musical de impressões digitais – qualquer tentativa de ajustá-las ordenadamente em categorias deve gerar uma justificativa clara de como isso pode beneficiar a arte, bem como o intérprete.

História da classificação das vozes

Historicamente, vários modelos de classificação de voz foram desenvolvidos para acompanhar as demandas de um repertório rico e em constante expansão. Na ópera, por exemplo, a categoria mezzo-soprano surgiu em meados do século XVIII, tanto na Itália quanto na França, porque os compositores começaram a escrever trechos ornamentais mais elevados, o que impulsionou a tessitura vocal em geral; isso desencadeou a necessidade de diferenciar entre os cantores que poderiam sustentar essa tessitura e os que não podiam.

Essa necessidade também gerou um notável debate sobre a classificação, já que está registrado que certos cantores insistiram em manter seu rótulo de soprano, apesar de ter que pedir aos compositores e orquestras para emendar, ou transpor, a música de acordo com suas vozes mais graves.

O desenvolvimento do sistema de classificação de voz que se seguiu foi baseado em características “fisiológicas”, características de cada voz. Como: alcance, tessitura preferida, flexibilidade e volume.

Sistema Fach

Outro modelo de classificação é o sistema Fach, que agrupa papéis de características semelhantes (caráter e vocal) – isso está sujeito a ‘gostos’ sócio-temporais. A utilidade das muitas subcategorias do sistema Fach tem sido debatida, e aquelas que ainda estão em uso são, sem dúvida, consideradas mais úteis para cantores. No entanto, como todas as vozes existem em um ‘continuum’, outras subdivisões sempre podem ser propostas.

Atualmente, a classificação vocal desempenha um papel crucial no desenvolvimento e progresso dos cantores, seja para uma carreira solo ou como parte de um coro. Uma das principais razões para a importância da classificação é que, independente do repertório, o canto é basicamente o conforto vocal.

A identificação precisa do tipo de voz, juntamente com uma técnica vocal confiável. Isso permite que o cantor represente livremente um personagem ou se concentre em transmitir o significado da música.

A classificação pressupõe um grau de autoconhecimento vocal – não apenas do alcance, mas da tessitura mais confortável. Essa é uma distinção importante a ser feita, pois quanto mais treinada é uma voz, mais provável é que ela tenha se expandido ao alcance e, ainda assim, a tessitura central continuará.

Mas não importa quão impressionante sejam as características das vozes, elas não definem sua categoria. A principal distinção entre os tipos de voz é feita observando a tessitura preferida do cantor, sua flexibilidade e seu timbre vocal.

A questão da tessitura preferida também é importante no repertório coral, onde a escrita para cada tipo de voz requer a manutenção de uma tessitura em um registro particular, por longos períodos de tempo.

Sopranos com vozes mais pesadas podem não ser adequados para a seção de soprano em um coro, já que seu registro mais confortável está sob o segundo passaggio, no qual a maioria da música coral é escrita. Além disso, suas vozes podem não se misturar tão facilmente nesse registro.

Devemos pensar na evolução e no desenvolvimento da voz e da classificação de papéis como uma construção torcida e baseada nas necessidades, em vez de um sistema ordenado e bem pensado, como às vezes é apresentado. Isso encorajaria todos nós a pensar mais criativamente sobre nossas próprias capacidades vocais, e aceitar o fato de que algumas vozes se encaixam mais nitidamente em categorias do que outras.

Como cada voz é específica do indivíduo, qualquer categorização sistemática de tipos de voz gerará inevitavelmente elementos excepcionais. Se a arte deve ser servida, então precisamos ter a mente aberta sobre a maneira pela qual essas exceções podem ser incluídas e ouvidas.